Perto do fim;

“Well, the morning was complete:
Where there was tears on the steering wheel, dripping on the seat.
Several hours or several weeks, 
I’d have the cheek to say they’re equally as bleak.

It’s the beginning of the end,
The car went up the hill and disappeared around the bend.
Ask anyone, they’ll tell you that it’s these times that it tends,
To start to break in half, to start to fall apart. Hold on to your heart.

And do me a favor and break my nose,
Or do me a favor and tell me to go away,
Or do me a favor and stop asking questions.

Well, she walked away while her shoes were untied.
When the eyes were all red, you could see that we’d cried .
And I watched, and I waited ‘til she was inside,
Forcing a smile and waving goodbye.

Curiosity becomes a heavy load – too heavy to hold, too heavy to hold.
Curiosity becomes a heavy load – too heavy to hold, will force you to be cold.

And do me a favor, and ask if you need some help.
She said, ‘Do me a favor, and stop flattering yourself’
And to tear apart the ties that bind:
Perhaps ‘fuck off’ might be too kind.”
(Do Me a Favour – Arctic Monkeys)


“Shh…”, lembro de você pôr o indicador na frente dos lábios, me pedindo de um jeito risonho para fazer silêncio. Lembro de encarar seus profundos olhos pretos, de me sentir terrivelmente cansada, mas, ao mesmo tempo, de sorrir de volta com uma expressão doída no rosto. “Não se preocupe”, você disse aquele dia, sentado no banco do motorista, enquanto esticava o braço na minha direção, passando a mão nas minhas bochechas molhadas de lágrimas de um jeito estranhamente delicado. “Não se preocupe que tudo isso vai passar. Vai ficar tudo bem…”, você falou como num sussurro, acariciando meu rosto pela primeira última vez… “Descansa, mais tarde a gente se fala.”.

   Desci do seu carro com medo de tropeçar nos cadarços meio desamarrados das minhas botas. Olhei para trás, e você dali, com as mãos postas sobre o volante, com o mesmo sorriso tranquilo em seu rosto, esperava que eu passasse o portão para entrar no prédio. Não lembro de te dar tchau ou de sorrir mais nenhuma vez, não lembro de saber o que fazer… Entrei no prédio com meu peito ardendo, com uma bola na garganta, mas sem nem mesmo conseguir chorar.

   Nessa manhã, você tinha me buscado quando eu estava bem à beira de um precipício – claro que não literalmente um precipício de pedra e chão, mas o bastante para ser perigoso. Com cuidado, me puxando pela mão para dentro do seu carro, você me levou para casa. Rindo a maior parte do tempo, ainda deixou que eu escolhesse as músicas para tocar no rádio, esperou que eu entrasse numa farmácia, esperou que comprasse uma caixa de calmantes, que tomasse água, que tomasse ar… Você subiu e desceu as várias ladeiras que levavam até meu prédio com seu carro engrenado na primeira marcha quase o caminho inteiro: talvez até mudasse para a segunda marcha quando precisasse, mas nunca acelerava o bastante para precisar trocar para a terceira… Devagarinho, bem tranquilamente, você me deixou à porta de casa e, ali, com seu “shh” me impediu de te pedir desculpas outra vez, me beijou e me abraçou.

   Essa sua reação não era o que esperava, e não era nem mesmo o que eu queria: nessa manhã, com tudo o que havia feito ao longo da noite inteira para afastá-lo de mim, o que mais precisava não era do seu amor e sim do seu último adeus. Mas este seria ainda o primeiro de muitos… Apesar de tanto você quanto eu sabermos que todos os caminhos nos levariam ao mesmo lugar: a sempre terminarmos em uma cena de despedida muitíssimo parecida com esta, nós insistíamos em tentar…

   Lembro de te cantar uma parte de uma das minhas músicas favoritas.

   “Quebrar seu nariz?”, você deu uma gargalhada ao escutar aquele verso.

   “Sim, com um soco…”, respondi soltando as palavras mais como um gemido.

   E que eu cantava a música só para você, foi isso que pensei que tinha feito: pensei que entenderia o que mais uma canção lhe diria, mas, tanto tempo depois, percebi que você não notou as letras… Por tantas ocasiões você achou que eu só cantava, mas não… E o que eu queria te dizer era simplesmente isso: que nessa manhã, enquanto eu morria tão lentamente, você confundiu meu sofrimento com nossa intimidade e, achando que, diante de uma situação tão terrível, nós dois nos aproximávamos, você não percebeu que o que mais desejava era deletá-lo da minha vida. Hoje você saberia que, se existisse uma só tecla para poder excluí-lo da minha cabeça, algo tão simples quanto apagar seus e-mails não-lidos, eu certamente teria apertado ao vê-lo me salvando mais uma vez…? Porque, se era o homem que me punha diante do abismo, como também era essa mesma pessoa quem me puxava de volta à terra firme? Era irônico, tragicômico, e era ainda platônico. E, sabendo que o odiava ao mesmo que o adorava, eu sentia ainda um amor tão verdadeiramente cru que me destruía de dentro para fora, sem que você tomasse ciência disso…

   “Pode perguntar a qualquer um… Eles te dirão…”

   “Dirão o quê…?”

   Abri a porta do prédio, olhei para trás mais uma vez.

   Eu chorava sem ter mais lágrimas, já havia chorado tantas noites por você.

   Você apoiava a cabeça no volante e enfim suspirava, nessa longa manhã…

Pedra de fundação

I’ve searched my soul, for you, today.
But this feeling is getting old, and it won’t go away.
I’m lost without you here
My love

It lays
Under the cornerstone,
That the builder threw away.
And I’ve searched my soul, but nothing ever came out,
And this feeling is getting old – right back into the cold, now.
(Vanity – Highly Suspect)


   Nesse lento fim de tarde, o silêncio que banhava o quarto, junto às pequenas poças de luz que passavam por entre as cortinas da janela, umedecia minha boca com um gosto amargo.

   “Vaidade.”, resumiam-se as palavras desse silêncio inquietante.

  Olhei pelo vidro opaco e empoeirado da janela, observei a rua em seus detalhes que, no ritmo normal, agitado da vida, me eram sempre tão desimportantes: o poste de cimento envergado pelo tempo, as pastilhas azuis que cobriam a fachada do condomínio defronte ao meu, as roupas do vizinho dependuradas no varal lá de cima, lá na cobertura. Neste dia, essas pequenas imagens de uma tarde qualquer me serviam como um bálsamo relaxante, como um tipo de calmante forte, cavalar, que só se toma quando parece que o coração está pra cair pela boca, ou também como uma daquelas pastas d’água que se aplica sobre a queimadura para suavizar a dor quente: eu olhava pela janela, eu observava essas cenas sossegadas, e, respirando devagar, inspirando e expirando lentamente, procurava entre elas um pouco de paz que pudesse sugar para dentro de mim.

   Entretanto, mesmo assim, impassível diante de todos os meus protestos por tranquilidade, eu ainda ouvia junto da minha orelha aquele mesmo silêncio, sussurrando, maldoso:

   – É a vaidade… – e eu sem querer repetia mudo, com a minha própria boca, as mesmas palavras do silêncio. Movendo os lábios devagarzinho, fingindo suas sílabas com cuidado para não as permitir escapar de fato – por pouco eu não deixava essas palavras fugirem à superfície do dia.

   – É a vaidade. – o silêncio repetiu ao pé do meu ouvido, com cada fonema babado por sua saliva invisível. Esse silêncio estranho, personificado, agia como alguém que solta uma isca saborosa para o peixe pegar, mas que fica ele mesmo com vontade de poder mordê-la: – Mas será que é a dela, ou é a vaidade sua? – e, perguntando isto, o silêncio parou um instante, esperando por mim, esperando para ver se iria ceder aos seus sussurros mal-intencionados e se enfim repetiria suas palavras tronchas com a minha própria voz. O silêncio queria ser som, pensei, mas eu não queria pronunciá-lo…

   Lentamente, ainda enquanto respirava devagar e pausado, tirei o olhar da janela. Vagarosamente fechei os olhos, e, tentando escapar das espertezas do silêncio contra mim, encarei para dentro: entreabri meu peito e olhei firme para dentro de mim… Apesar de não querer encará-lo de frente, mesmo assim eu queria descobrir: afinal, de quem era a vaidade de que o silêncio falava?

   – Não. – ainda mudo, falando só entre meus pensamentos, recusei ao silêncio: – Não preciso responder sobre isto a você… Quem tem de saber sou eu, não você, nem muito menos ela…

   E então, como se subitamente a noite caísse sobre o dia e a tarde fosse parar por debaixo do parapeito da minha janela com um único soco, um nocaute, tudo ao meu redor ficou escuro: ouvi o som repentino das cortinas do quarto se fechando ao meu redor, me enclausurando, e num instante eu estava na mais profunda escuridão. Ali nem mesmo o silêncio podia me alcançar…

   E, ali, não existia nada a não ser…

   A não ser...

   Uma pedra…

   Uma pedra…?

   Sim, uma estranha e disforme e terrivelmente enorme pedra.

   Assustado com o que encontrava, olhei duas, três vezes para aquele buraco no meu peito onde deveria estar meu coração, mas ali não havia outra coisa – a não ser essa pedra…

   Engoli a seco: no fundo de mim, no fundo dos meus olhos fechados, apertados, com meus pensamentos trancados num porão distante do meu cérebro, eu via repentinamente essa grande, grande pedra – uma pedra tão grotescamente grande que, por alguns instantes, fiquei imaginando como é que ela caberia no meu peito… Era redonda e maciça, mas também era ligeiramente áspera e grosseira, um monólito cinzento tal qual as grandes cabeças da Ilha de Páscoa; era algo, pensei, que deveria estar ali desde os primórdios de mim. Era ela a minha pedra de fundação.

   Dentro do escuro de um quarto que nem sequer mais existia, caminhei até ela, a pedra. Afaguei minha mão contra sua superfície até sentir minha pele doer na sua aspereza. Era uma rocha dura, sólida, que provavelmente pesava sozinha mais de uma ou duas toneladas, mas, pressionando minha mão contra sua superfície, de repente tive uma sensação estranha: era como se pudesse sentir ali, ao toque da minha pele, o som de batidas suaves e compassadas… A pedra estava viva, e seu coração, perdido no meio dos minérios, batia lentamente, lutando para não parar.

   Era incômodo e assustador: que, mesmo que as batidas do coração da pedra viessem até mim muito, muito fracas, eu sentia como se pudesse segurá-lo bem ali, entre as minhas duas mãos. Enojado com essa sensação estranha, quase indescritível, me afastei dando um passo para trás.

   Então, repentinamente, ouvi um som grave, lento, como o gemido de um animal pesado e abatido… “É a pedra”, imediatamente pensei, “É a pedra falando”.

   – A do mundo… – a mesma voz gorda e oca que soltara o gemido deixou então ressoar lentamente algumas curtas palavras: – É a do mundo todo… – ela disse.

   Surpreso, pisquei os olhos várias vezes. A pedra estava dentro do meu peito, a pedra estava viva, e a pedra falava.  Ou, mais surpreendente que isso: a pedra sentia e pensava. E, através de suas palavras melancólicas, lesadas, essa pedra que morava em mim deixava escorrer seus sentimentos duros de uma maneira suave e aquosa. Agucei os ouvidos para escutar o que ela tinha a me dizer…

   – É a do mundo… É a vaidade de todo o mundo… E aqui você está… Aqui. Aqui. – boquiaberto, percebi que a pedra respondia ao que antes o silêncio me dizia. Ele, o silêncio, e ela, a pedra, tinham algo a me contar sobre a mesma coisa: de quem era aquela vaidade que cortava longos sulcos entre mim e ela? De quem era esse orgulho podre, de cheiro de peixe, que lentamente me partia em dois?

   – É a vaidade de todo o mundo… É a vaidade dela. E aqui você está… Aqui. Aqui… – a pedra disse.

   – É a vaidade de todo o mundo… É a vaidade sua. E aqui você está… Aqui. Aqui… – ela repetiu.

   – É a vaidade de todo o mundo… É a vaidade dela. É a vaidade sua. Então você finalmente veio aqui… Você finalmente veio aqui. Você veio… Aqui. Aqui. Aqui… – e, sem parar, ela continuou.

   Por um minuto inteiro, a pedra se pôs a repetir, repetir e repetir, obedecendo a um ritmo que parecia compassado com as batidas do seu coração meio vivo, meio morto. E a cada “aqui” que ela soltava, sua voz se tornava mais forte e pesada, ao ponto de fazer todo o espaço ao meu redor sacudir. Com esforço, preguei meus pés no chão, tentando não balançar a cada palavra que a pedra entoava.

   Aqui.

   Aqui.

   Aqui…

   A pedra falava bem menos que o silêncio, mas era repetitiva, e dura, como era de se esperar: sem parar, ela continuava a dizer o mesmo “aqui” várias e várias vezes… Mas do que é que ela falava e a que exatamente ela queria chegar? O que essa pedra queria dizer com sua resposta tão enigmática? Cocei a cabeça, tentando entender: era difícil ouvi-la, me segurar no mesmo lugar e ainda captar o que dizia com essas palavras. Fechei os olhos, tentando me concentrar por um instante sequer, mas ali não havia silêncio, e ainda ouvia os grunhidos pedregosos daquela criatura batendo contra meus ouvidos. Apertei ainda mais os olhos, forcei os miolos a pensar, porém, pouco antes que pudesse chegar a alguma solução, alguma resposta, a pedra entreabriu sua grande boca interna e gritou:

   – AQUI! – de repente ela soltou de uma vez, com toda a potência do seu corpo rochoso.

   Seu grito foi tão alto que caí no chão, as paredes estremeceram, e o teto se partiu em pedaços. De um segundo para o outro, aquele pequeno espaço do meu peito colapsou, com a pedra sendo desaparecendo junto dele. Assustado, abri os olhos. Meu pulso estava disparado, minha pele estava úmida de suor e minha respiração estava completamente desorganizada. Quando olhei ao redor, percebi que não estava mais no escuro de dentro de mim: eu continuava no meu quarto, sob o frio do outono e sob a luz distante do final do dia. Não via mais a pedra monolítica que encontrara no peito, apenas via a cadeira, o armário, a cama – móveis comuns que mobiliavam aquele cômodo.

   Agora, entretanto, havia algo de bem diferente de antes. Enfim, o silêncio estava mudo… Aliviado, suspirei: o silêncio voltara a ser apenas silêncio, ele nem sequer ousava tentar falar. A pedra respondera a tudo sem pudores, acusando os culpados com uma honestidade indubitável: a culpa era de todos. Eu, ela, todos – a vaidade era de todos. A mesma resposta de sempre, talvez, mas uma resposta clara.

   Ergui os olhos novamente para a janela: nada tinha mudado, o poste permanecia torto, as pastilhas ainda eram azuis, e as roupas do vizinho continuavam a balançar sob o vento. Era tudo igual, mas havia uma coisinha a mais ali: agora, por um motivo estranho e pesado, eu sabia que existia em algum lugar daquele quarto, em algum lugar dentro de mim mesmo, um ser enorme, bruto e vivo… Um ser tão grande que era capaz de esmagar meus pensamentos, capaz de rasgar a minha vaidade de saber…

   Eu não sabia nada, o silêncio não sabia nada, e nem ela sabia nada…

   Os sulcos que se agravavam entre nós dois, eles também não sabiam de nada…

   Mas, dali para frente, com ou sem esse não-saber, o que aconteceria…?

   – Por algum motivo você veio até… Aqui… – ouvi um cochicho.

   Fechei os olhos, respirei fundo e me levantei de onde até então estava sentado. Caminhando devagar, deixei o quarto para trás e, com ele, o fim de mais um longo dia.

 

Últimas cartas

“Well I never really thought that you’d come tonight
When the crown hangs heavy on either side
Give me one last kiss while we’re far too young to die.”
(Far too Young to Die – Panic! At the Disco)


Olhei para o relógio digital que ficava na calçada do outro lado da pracinha. Os números marcavam a hora em vermelho-vivo, brilhando silenciosamente contra o negrume do começo da madrugada. Eram exatamente onze e trinta, e eu estava sentada no mesmo lugar fazia quase duas horas. Cansada, girei o pescoço para um lado, depois para o outro: os ossinhos dos meus ombros estalaram, e, sem querer, soltei um longo suspiro. Baixei a cabeça, olhei para o gordo embrulho de plástico sobre meu colo. Senti o coração apertar de leve ao encará-lo, mas, como se engolisse a dor, segurei dentro do peito aquele aperto e não deixei que nada escapasse à superfície. Nem outro suspiro nem uma lágrima… Levantei a cabeça e, de novo, encarei o relógio de rua: dia vinte e um de maio, dezenove graus e, agora, onze horas e trinta e um minutos. Fechei os olhos e silenciosamente pensei no que fazia ali… 

   Era tarde, mas, num canto da praça, um grupo de velhos jogava cartas. Eles estavam sentados na mesma mesa de cimento há mais tempo que eu estava sentada no mesmo banquinho de madeira, mas, diferente de mim, nenhum deles parecia estar cansado daquilo. Com poucas palavras, de rodada em rodada, um deles tomava o baralho de volta nas mãos, embaralhava o deque e redistribuía entre eles o tanto de cartas que precisariam para a próxima partida. Aquilo parecia não ter fim, mas, ainda assim, sentia haver um leve ar de contentamento pairando sobre aquela pequena mesa: para eles estava ótimo ficar ali até o sol raiar, ninguém esperava por eles e eles não esperavam por ninguém, só as cartas eram companhia suficiente para o divertimento de uma noite inteira. Eu, porém, não conseguia me sentir igual, e o motivo, claro, era óbvio… É que eram dois jogos diferentes, o dos velhos e o meu: um era uma partida de sueca, e o outro era de teimosia. Ao pensar nisso, ri de mim mesma… E, quando o relógio mudou a hora mais uma vez, agora para onze e trinta e dois, enfim me levantei do lugar.  

   Cruzei a praça silenciosamente. Meus pés arrastavam devagarinho contra o chão de cascalho, fazendo um barulho chato e lento. Ainda com o mesmo embrulho de plástico nas mãos, eu pensava no que faria com aquilo. Jogava fora? Levava de volta para casa? Ou dava um jeito, meio insistente, meio inconveniente, de que esse embrulho enfim te alcançasse? Não. Nada daquilo me satisfaria… Agora que haviam passado duas horas de uma dolorida espera pela sua presença, agora que entendia perfeitamente que você tinha decidido me ignorar, me apagar, eu sentia que nada no mundo preencheria aquele buraco no meu peito. É claro que podia fazer o que quisesse com aquele embrulho, mas, ao tempo em que o relógio da rua rolava seus dígitos um por um, aquilo que deveria ter sido minha cartada final perdia todo seu fôlego. A verdade era que eu nunca te entregaria de volta as suas coisas: elas ficariam presas a mim, embaladas naquele plástico ridículo mesmo que as jogasse fora, simplesmente porque você não ligava para nada do que tinha deixado comigo. Nada. Teu amor, minha dor, teu ego, minha solidão… Meu peito doeu de novo, e, engolindo a seco, controlei o choro que agora subia com força pela minha garganta, áspero como uma pedra, pesado como um soco no estômago…  

   Olhei ao meu redor. Sem que eu mesma tivesse percebido, tinha estacado no meio da praça. Sobre mim, um poste alto, mas com a lâmpada queimada; acima do poste, uma gorda lua cheia… No quarteirão todo, fora os velhos e eu, não havia mais ninguém. Um vento gelado carregava o frio de outono por todos os lados da praça, esticando sobre os cascalhos os dezenove graus que fazia naquela madrugada, e os dezenove graus apertando e amaciando minha pele descoberta. Chacoalhado pelo vento, o plástico do embrulho roçava contra meus dedos, farfalhando, e a sensação incômoda que era segurá-lo parecia se ampliar… Mordi os lábios e, então, de repente me vi rasgando o plástico. Uma pilha de coisas caiu no chão, aos meus pés. Blusas, meias, um copo, um colar, e, no meio de tudo isso, um pequeno livro: tudo espalhado sobre as pedras e a poeira que cobriam o chão da praça. Por alguns instantes fiquei ali, de pé, olhando para aquelas coisas, segurando os restos do embrulho nas mãos sem me mexer, até que, como se um estalo súbito religasse meus pensamentos, me ajoelhei ao chão. 

   Acocorada sobre o cascalho, passei a mão sobre as roupas, sobre o copo e o colar, e, por fim, folheei o livro. Na terceira ou quarta página encontrei uma pequena dedicatória, bem curta, bem breve, de no máximo duas dúzias de palavras… Eu sabia, só de lê-las, que aquelas seriam as últimas palavras que eu receberia vindas de você, ainda que tivessem sido escritas muitos meses antes. Em silêncio, li: “Você me disse que queria se tornar escritora, então te trouxe um livro para aprender com o melhor. Com carinho, -.”. Fechei o livro, contemplei a capa e, ainda em silêncio, ri: você de presente me deu aquele livrinho, mas, apesar de muito ter tentado me domesticar, de muito ter conseguido me cativar, você ainda assim nunca procurou se responsabilizar pela dor que fizera crescer em mim… E, como hoje, me deixaria esperando eternamente, sem nunca entender o que me fazia sentir.  

   Tuas coisas, meus presentes, teu amor, minha dor, teu ego, minha solidão… E mais tuas palavras passadas da validade, e mais o meu silêncio – o silêncio de quem não tinha espaço a dizer nada, de quem perderia seu último encontro, preso naquela noite, naquela mesma praça para sempre.  

 

 

Nona Estação

I’m not sure if I should show you what I’ve found.
Has it gone for good?
Or is it coming back around?
Isn’t it hard to make up your mind,
When you’re losing and your fuse is fireside.
(Fireside – Arctic Monkeys)


Um trem escuro, uma estação vazia, uma figura antiga –

Estava sentada num dos bancos duros e frios do trem, lendo em silêncio um livro que levava apoiado sobre o colo. Eram em torno de seis horas, e do lado de fora, às minhas costas, através de uma janela gotejada por pingos de chuva, o sol se punha vagarosamente atrás de um céu nublado. Dentro do vagão não havia uma só viva-alma, somente eu, lendo distraidamente meu velho livro e esperando o trem chegar à minha estação de destino. Aqui e ali, de minuto em minuto,tinha de erguer o rosto para descobrir em que altura estava, já que neste dia, não sabia por que motivo, os avisos do trem não estavam sendo transmitidos pelos alto-falantes. Ainda assim, mesmo que por vezes tivesse de me desprender do livro para me achar entre as estações do trem, nessa tarde eu tentava deixar que o tempo passasse da maneira mais fluida possível, sem me ater a pensamentos, sem me lembrar de onde vinha nem me pensar aonde ia. Nesse meio tempo em que segui embarcada, talvez por estar tão sozinha, por não querer pensar em nada específico e por não receber sinal algum do mundo de fora, sentia como se fosse a única pessoa em um raio de quilômetros. E o silêncio era quem embalava minha viagem ao longo dos sacolejos rítmicos do vagão…

   Mas, enfim, talvez vinte ou trinta minutos desde que entrara no vagão e desde que me obrigara a me entreter com o livro, agora, levantando os olhos para checar onde é que os freios do trem brecavam, me dei conta de que a duas estações dali seria onde eu deveria saltar.

   – Estamos na sétima estação… Só mais uns quilômetros, e então a nona. – falei baixinho comigo mesma. – Não pensei que um dia fosse estar de novo contando estações… – e suspirei enquanto, contando nos dedos, me certificava de que de fato estaria perto do meu destino.

   Era algo meio estranho de dizer, mas ainda então eu pensava nas estações de trem através de números e não por seus nomes. Da minha casa até onde precisaria ir neste dia eram dez estações, isto contando com a de partida e a de chegada. A estação junto de onde morava eu tinha apelidado de Estação Zero, e a em que desceria neste dia, portanto, a Estação Nove. Raramente eu saltava do trem em outro lugar que não essa nona estação, e por conta disso nunca me dera ao trabalho de gravar os nomes de nenhuma delas. Eu ia simplesmente contando parada por parada, uma parte do meu cérebro focada no que quer que estivesse fazendo, e uma outra focada em contar as estações para que não perdesse meu destino. Mas neste dia, talvez por fazer tanto tempo desde que não andava de trem, estava ligeiramente confusa: será que eu tinha contado certo? Pois havia algo de diferente no ar, e a estação por onde o trem passava agora não me lembrava muito bem a Estação Sete – na verdade, essa estação de agora não me lembrava muito bem de nenhuma das dez pelas quais sempre passava…

   Enquanto ainda me indagava, as portas se abriram na sétima estação com leve um estalo, mas nem mesmo uma pessoa subiu no vagão. Estava já de noite, e parecia que o sol tinha se posto num instante, sem que eu sequer tivesse podido perceber. Olhando pelas janelas à minha frente, também não via ninguém na plataforma de embarque e, não fosse pelos poucos postes de luz que clareavam as sombras da estação, eu nem mesmo saberia disso. As portas deslizaram outra vez, mas agora se fechando em completo silêncio. As rodas do trem entraram novamente em movimento, começando lentamente a arrastar consigo todas as suas toneladas de metal. Enquanto eu e o trem íamos embora, lancei um olhar demorado à sétima estação, ainda me perguntando por que motivo ela me parecia tão pouco familiar. Entretanto, quando enfim já não podia mais ver a plataforma pela janela, escolhi esquecer disso, uma outra vez suspirando e uma outra vez me forçando a voltar ao livro: “Uns três minutos, e a oitava estação. Depois disso, a nona.”, pensei.

   Baixei a cabeça, corri os dedos pela página do livro, retornei ao parágrafo em que parara e, durante os três minutos de uma estação a outra, li tanto quanto pude. Faltando tão pouco para chegar, eu não conseguia mais impedir minha mente de pensar no motivo que me levava até ali, e também já não conseguia impedir meu coração de palpitar ansiosamente. Os três minutos passaram mesmo parecendo quase uma eternidade, e a oitava e penúltima estação surgiu aos poucos através da janela, cada pedaço seu aparecendo paulatinamente enquanto o trem freava… Me preparei calmamente para ter de saltar na estação seguinte, guardando o livro na bolsa, checando a hora no celular e colocando o capuz do casaco sobre a cabeça. Quando o trem parou completamente, com seus freios gemendo pelo enorme peso do comboio, esbocei um movimento para me colocar de pé, e foi então que, repentinamente, todas as luzes do vagão e da estação se apagaram num só instante.

   – Mas hein…? – deixei um grunhido escapar, e minha respiração engasgou no meio da garganta. O trem já estava totalmente parado, mas, sem as luzes de dentro e de fora para me guiar, estaquei no mesmo lugar, ainda sentada, esperando. – Será que acabou a luz…?

   Não percebia movimento algum na estação: ninguém procurando ajudar os passageiros, ninguém avisando o que tinha acontecido, ninguém querendo embarcar e ninguém querendo saltar. Tudo, como antes, permanecia no mais completo silêncio, e, aos poucos, eu começava a acreditar, desnorteada e pasma, no meu desconfortável pensamento lá de antes: era como se eu fosse a única pessoa num raio de quilômetros… Aguardei calada, parada, sentindo minha própria respiração ficar cada vez mais carregada e meu coração bater cada vez mais rápido pelo medo claustrofóbico de estar presa dentro daquele trem. Foi então que ouvi um estalo igual ao de poucos minutos antes: eram as portas do trem que se abriam suavemente. Franzi o cenho numa careta: mas como isso era sequer possível se a luz de toda a estação tinha acabado? Por alguns instantes, fiquei em dúvida se aproveitava a oportunidade para me levantar e caminhar para fora, mas, num misto de medo e de razão, pensei que seria muito descuidado sair dali no breu em que estava. Decidida, mas ainda nervosa, permaneci estática esperando que algo acontecesse: talvez as luzes acendessem novamente, talvez o trem voltasse despreocupadamente a andar ou talvez as portas simplesmente se fechassem de novo… Entretanto, o que realmente aconteceu não foi nenhuma das coisas que pensei, e sim algo muito mais estranho e muito mais inesperado.

   De repente, o silêncio foi interrompido por umas dezenas de sapatos batendo contra o piso do vagão, todos os pares de pés acompanhados pelo burburinho incômodo e ininteligível de mulheres e homens conversando. Eram de fato pessoas embarcando no trem, mas de onde elas tinham surgido e por que só agora, num breu, elas resolviam subir nesse vagão? Sem que pudesse vê-las, mas escutando seu constante rumor, senti que umas se sentavam no banco, ao meu lado,enquanto outras se acotovelavam no espaço à minha frente. E, então, o trem, mesmo num escuro profundo, agora estava completamente abarrotado por todas aquelas pessoas estranhas. Senti um leve sacolejo e logo notei que o vagão começava a se movimentar outra vez, bem devagarinho.

   – O que está acontecendo…? – soltei em voz baixa, com o coração palpitando cada vez mais rápido e com a sensação de claustrofobia intensificada por ter agora tantas pessoas ao meu redor. Diferente de poucos instantes atrás, eu ia ficando realmente apavorada: como um trem poderia sair andando com todas as suas luzes apagadas, e ainda mais lotado de pessoas? Como é que ninguém poderia estranhar o que estava acontecendo? Era só eu que não entendia a situação?

    – A-alguém sabe o que está acontecendo…? – tentei perguntar pra quem quer que estivesse sentado ao meu lado, mesmo que mal ouvisse minha própria voz, baixa e tímida, sob o murmurinho dos demais. Eu simplesmente não entendia como todos que tinham embarcado conseguiam entrar em um trem no escuro e seguir viagem despreocupadamente – para mim isso era um indicativo de que algo estava acontecendo, sim, mas que só eu não sabia o que era.

    Respirei bem fundo, tentando conter meu repentino ataque de pânico, e refleti que o melhor a fazer era simplesmente esperar o trem parar na nona estação e então arrumar um jeito de me espremer entre as pessoas para desembarcar ali, mesmo que ainda no breu. “Ficar sentada aqui até a última parada está fora de cogitação, e eu ia ter de descer na próxima mesmo.”, pensei comigo mesma, “Agora é só eu não me estressar... Nenhuma dessas pessoas está se preocupando. Vai ver estou exagerando. Ou vai ver foi algo que aconteceu na Sete, e não conseguiram avisar a todos os passageiros… São só mais dois, três minutos mesmo...”.

   Apertei os olhos, agucei os ouvidos e prestei atenção ao cenário do lado de fora do trem, esperando que pudesse enxergar ou escutar algo que indicasse quando ele já estivesse próximo à plataforma da estação. Por vários metros, vi só o cinza dos longos muros que circundavam a linha ferroviária na cidade sem encontrar um único pontinho de luz que não fosse dos prédios vizinhos. Esperei com muita paciência, quase contando os segundos, até voltar a sentir o trem frear outra vez. Então, de metro em metro, pude ver o tom cinza do muro aos poucos ser trocado por algo que pareciam ser os contornos familiares da nona estação. Sorri satisfeita, aliviada: se por um lado era ainda um incômodo ver que também faltava luz ali, por outro era uma consolação perceber que sabia distinguir essa estação mesmo imersa no breu. Outra vez me preparei para levantar…

   Segurei na barra de apoio do trem, estiquei as pernas e me pus firmemente de pé… Mas, assim que o comboio parou por completo outra vez, de repente todas as pessoas de dentro do vagão, no mesmo instante, se puseram em silêncio. Ergui uma das sobrancelhas, sacudi a cabeça e soltei um riso simplesmente nervoso… Parecia tudo uma enorme brincadeira de mau gosto: outra vez, eu me sentia como se fosse a única pessoa dentro do trem, como se todas as demais que tinham embarcado tivessem desaparecido num estalar de dedos, e, antes que pudesse pensar em um só motivo para tudo aquilo, de novo mais coisas estranhas se desenrolavam: as portas se abriram com o mesmo barulho sutil, os pés dos presentes marcharam para fora do vagão, e, como se tudo andasse num replay, as luzes do trem e da estação se acenderam.

   – Mas como…? – outra vez as palavras engasgaram sem que conseguisse dizer uma só frase por inteiro. Olhei apressadamente ao meu redor, assustada e surpresa: não havia mais nenhuma pessoa dentro do vagão, parada junto à plataforma ou mesmo circulando pela estação. – Sumiram…? Simplesmente sumiram? – e eu não entendia mais nada.

   Engoli a seco, as perguntas se acumulando em minha mente como dezenas e dezenas de convidados incômodos…: “De onde todas essas pessoas vieram? Para onde é que elas foram? E como que diabos todas desapareceram em segundos? Será que estou delirando?”.

   Caí sentada no banco duro. Por minutos e minutos, o trem permaneceu completamente parado, sem que nada indicasse que o maquinista tivesse o interesse de partir dali. As portas também continuaram escancaradas, e, aos poucos, as gotas de chuva que agora caíam pesadas começavam a escorrer pela lataria do comboio, pingando ritmicamente sobre o piso do lado de dentro. Eu, assim como o trem, assim como as portas, me conservei ali parada: a nona estação estava bem na minha frente, congelada há minutos diante dos meus olhos, como num convite para que eu saltasse quando bem quisesse, mas agora eu já não queria descer nesta parada… Porque, afinal, se isso tudo se resumia a um convite sinistro, eu sinceramente preferia continuar enfiada naquele trem e sentada naquele banco mesmo se as luzes se apagassem novamente… Porque, se tudo isso se encaminhava a um cenário que se desenrolava independentemente de mim, sem que tivesse o menor controle sobre ele, então preferia esperar para que seja lá o que fosse acontecer simplesmente acontecesse… E, sim, como a essa altura era de se esperar, o que havia ainda para acontecer realmente aconteceu.

   Uma pessoa apareceu caminhando, vinda do lado direito da plataforma: seu olhar baixio, seus passos inaudíveis, e seu rosto sem que eu conseguisse enxergar – até que entrasse no vagão onde eu estava, exatamente no vagão onde me encontrava.

   Assim que essa pessoa pôs os pés para dentro do trem, as portas se fecharam atrás dela com um baque ensurdecedor. Meu coração estremeceu. Diante de mim, ela me olhava com uma expressão tristonha, um sorriso ferido… Essa pessoa era ele.

   Meus lábios se entreabriram, e, por instantes, esperei que ao menos uma palavra saltasse para fora da minha boca – em vão. Eu quis chorar, eu quis fugir, mas tudo que consegui fazer foi o mesmo de antes e de sempre: continuar parada, sentada no banco.

   – Oi pra você aí… – ele disse.

   Antes que o trem tornasse a se mover, ele permaneceu ali de frente para mim, com suas roupas encharcadas da chuva respingando sobre o chão, enquanto me encarava diretamente nos olhos e me direcionava um sorriso extremamente ácido. Então, quando enfim nosso vagão deu os primeiros sinais de que deixaria a estação, ele desviou seu olhar e se afastou de mim.

   – Tchau pra você aí… – ouvi dizer mansamente, de costas para onde eu estava.

   Ele se encaminhou para o outro extremo do vagão e se sentou em silêncio. Seus olhos, seus lábios e seus movimentos ainda esboçavam a mesma aparência tristonha mesmo com ele procurando agir de maneira dura e altiva, mesmo com ele procurando fingir despreocupação e indiferença. Eu o conhecia e conseguia ver através de seus atos, mas ainda assim…

   Seus olhos, os mesmos olhos que um dia marcaram minhas lembranças a ferro… Seus olhos, os mesmos olhos expressivos, finos, incisivos e escuros… Vê-los desse modo me magoava. Eu baixei a cabeça e pus a mão sobre o rosto: outra vez o escuro me envolveu, e, sem pensar em mais uma só coisa, chorei silenciosamente. E o trem enfim deixou a nona estação.

*

– Alô, alô… Acorda! Você vai perder a sua parada! – alguém me sacolejava com força.

Sonhos fundos

And now people talk to me, but nothing ever hits home.
People talk to me, and all the voices just burn holes.
.
I dream all year, but they’re not the sweet kind.

And the shivers move down my shoulder, blades in double time.
And now people talk to me – I’m slipping out of reach now.
People talk to me – and all their faces blur.
.
I’m done with it. 

This is the start, of how it all ends.
(Yellow Flicker Beat – Lorde)


Conforme caminhava cuidadosamente sobre as rochas, tentando não pisar nas pedras soltas e não cair nas poças d’água, sentia entre os dedos dos pés o limo grosso que forrava os metros e metros de caminho à frente. Eu andava atenta, desconfiando desse limo que, mesmo sendo suave e macio, era também muito escorregadio e viscoso, a cada passo me ameaçando com um tropeço e um mergulho direto nas ondas da baía. Aqui e ali, eu lançava um olhar furtivo para o mar, e a cor profunda de sua água me deixava ainda mais receosa. Sentia como se ali, debaixo dessas ondas azuis-escuras, morassem dúzias e dúzias de criaturas marinhas que só esperavam por passantes desastrados como eu, bobos prestes a cair em seus estômagos famintos. Arrepios escalavam minha espinha enquanto eu caminhava vagarosamente sobre as rochas, imaginando os bichos do fundo do mar, pensando em olhos arregalados e em bocas gigantes, pensando no escuro sinistro da baía…

   – Mas por quê? Mas por onde? Mas para quê?

   Levantei o olhar, que até aquele ponto eu fechara somente sobre as rochas, pedras e poças, e ali, bem diante de mim, encontrei a sua figura me encarando. Seus olhos meio puxados rasgavam a distância entre nós: sua expressão chegava até mim com um quê de aborrecimento, e seu olhar pontiagudo afiava a sensação de perigo que me admoestava desde que tínhamos posto os pés na beira da praia… Era que você já não aguentava esperar pelos meus passos lentos e queria mais que nunca me apressar a ir até onde estava. Dali, você me acenava insistentemente com uma das mãos, me indicando um caminho por onde podia o acompanhar. Sua boca se movia obstinadamente, me gritando alguma coisa, seus lábios abriam e fechavam, emoldurando frases que não podia ouvir sob o marulho da baía…

   – Por isso, por aqui. Vem por isso. Bem por aqui.

   À minha frente, um longo corredor formado por aquelas rochas cheias de limo seguia até a outra ponta da baía. Cinco navios-cargueiros titânicos boiavam debilmente do lado de lá, perto do horizonte, todos eles parecendo prontos para afundar pelo peso absurdo de suas carcaças. Agora que a maré estava baixa podíamos ver que as rochas quase chegavam até os navios, mas ainda assim era um engano bastante óbvio pensar que ali a profundidade da baía era pouca: esse caminho de pedras nos convidava a peregrinar até lá e esses navios nos chamavam para perto deles, mas, se a maré subisse, rapidamente seríamos engolidos pelo mar sem que tivéssemos a menor chance de correr até a praia… Era um convite e um chamado hipnotizantes, mas indiscretos.

   E, enquanto eu observava esse cenário assustador, você também me chamava – sabe deus por que, sabe lá para quê… Eu só imaginava que era tudo uma enorme burrice – tudo, absolutamente tudo aquilo… Fechei os olhos, mordi os lábios e suspirei:

   – Não, eu não vou…

   Meus pés frearam, minhas pernas estacaram, e meu rosto se contorceu numa careta: no mesmo momento em que pensei em parar e voltar, as ondas ao redor de onde estava cresceram, urgindo em abocanhar meus pés. Mas por que logo agora…? 

   – Sim, você vai sim…

   Eu olhei para frente e para trás, mas rapidamente percebi que não teria tempo para voltar até a praia. Só me restava a chance de correr até onde você estava e de rezar para que ali, onde as pedras eram mais altas, as ondas não conseguissem nos alcançar.

   – Eu não vou – não tenho mais como.

   – Você vai sim – só tem essa escolha.

    Juntei todas as forças que tinha no corpo e corri tanto quanto pude. Eu tropeçava nos meus próprios pés, embolando as pernas, embolando os braços… Meu coração disparava fora de compasso, minhas vísceras se embrulhavam de medo, e as ondas aceleravam mais e mais, correndo atrás de mim, espumando e borbulhando bem detrás dos meus tornozelos…

   Fechei os olhos. Senti as bochechas esquentarem. Corri e corri e corri.

   Ouvia os rangidos lentos dos navios enquanto o mar os erguia milímetro por milímetro: os navios iriam se erguer sobre nós, virar de ponta-cabeça, nos esmagar. Sentia os leves balanços das pedras conforme as ondas as moviam centímetro por centímetro: as pedras iriam se mover sob nós, girar debaixo dos pés, nos engolir. Não tinha mais jeito, pelo menos não para mim… Sim, não tinha mais jeito: eu ia ficar para trás.

   – Para de pensar e corre!

   Eu estaquei no mesmo lugar.

   Você já estava longe – você sempre correu muito mais rápido que eu…

   Você gritava para mim – você sempre pensou muito mais claro que eu…

   E eu estava ali estacionada – eu já tinha desistido, eu estava parada desde o começo.

   – Cala a boca e cai fora daqui!

*

A maré subia rapidamente naquela baía. E, quando todas as criaturas já estavam deitadas no mar, quando o longo corredor de rochas já estava mergulhado sob as ondas outra vez, quando os navios já estavam nadando nas águas… Todo o lugar era só um longo silêncio.

   E então, quando eu já estava naufragada, o sonho acabava, e eu acordava.

00:00

When the zeros line up on the 24 hour clock,
When you know who’s calling even though the number is blocked.
(Knee Socks – Arctic Monkeys)


Parte 1. Zero horas e um número bloqueado –

Enfim os dígitos do relógio-digital rolaram, e então marcavam meia-noite em ponto. Todos os quatro zeros, agora alinhados, brilhando em vermelho-vivo sob o forte escuro do quarto. Fiquei encarando o mostrador do relógio por alguns segundos, com a impressão de que o alarme tocaria repentinamente. Porém, mais uma vez naquela curta semana, a noite morria em completo silêncio…

   Estava sentado em minha pequena poltrona, junto à janela, ao canto do quarto. Dali, podia encarar as árvores de frente ao prédio e a lua encoberta por nuvens no céu. Era um ótimo lugar para se descansar, fosse pela manhã ou pela tarde, fosse no fim ou no começo da noite, e nos últimos cinco dias eu tirara proveito desse cantinho da casa para divagar por minutos a fio. Não sabia dizer exatamente por que me sentava logo ali só para ficar parado olhando pela janela, largado até tarde mesmo que precisasse dormir cedo para estudar no dia seguinte. Mas, nas últimas cinco noites, essa mesma rotina tinha se desenrolado: eu me sentava na poltrona por volta das onze e tantas, e ali esperava por simplesmente nada até meia-noite, só desperdiçando tempo, só observando a hora passar… Ainda assim, todas as noites eu tinha a sensação de que algo de importante estava prestes a acontecer e, por isso, tinha a impressão de que devia ficar exatamente ali, paradinho, quietinho, esperando por esse algo.

   Porém, até então, nada havia acontecido de verdade…

   Deitei a cabeça sobre a escrivaninha ao meu lado, amassando minhas bochechas contra a madeira do móvel. Enfiado entre as almofadas da poltrona, voltei a encarar o relógio-digital sem tirar os olhos dele nem por um instante. Mesmo a poucos metros de mim, por culpa de meus vários graus de miopia, os dígitos do mostrador pareciam se prostrar ligeiramente vacilantes, quase como se eles estivessem incertos de que era de fato meia-noite. Estático, distraído, insisti em encarar o relógio até que seus dígitos rolassem mais uma vez.

   – Meia-noite e um. – suspirei. – E então…

   E então, é claro, os dígitos haviam se tornado três zeros e um número um.

   E os galhos das árvores subitamente estremeceram com um forte sopro de vento, e a lua repentinamente desapareceu entre as tantas nuvens que emergiam lá em cima no céu… Mas mesmo então a noite continuava imóvel, imersa em silêncio ainda como antes. Senti como se, inexplicavelmente, ainda fosse meia-noite em ponto: como se um enorme relógio lá fora houvesse sido pausado, e meu pequeno relógio aqui dentro, desavisado, seguisse rodando seus dígitos por puro desconhecimento. Senti como se, irremediavelmente, a noite tivesse sido posta em suspensão: os minutos presos numa bolha de ar, flutuando num globo de neve, com tudo muito quieto, com tudo quieto demais… Logo me invadia novamente a impressão de que algo de importante estava chegando e sem pensar, sem querer, prendi minha respiração.

   Antes que percebesse, enquanto ainda segurava a respiração, os dígitos do relógio rolaram uma terceira vez, agora para se transformarem em três zeros e um dois. Entretanto, ainda assim, dentro da noite onde eu estava eles pareciam ser os mesmos quatro silenciosos zeros, a mesma meia-noite – como se agora nenhum outro número existisse ou pudesse vir a existir outros se não grandes e gordos zeros. Fechei os olhos e deixei simplesmente que a quietude da madrugada me invadisse: naquele momento vinha até mim uma sensação ímpar, uma sensação como nenhuma outra… Do lado de fora da noite, alguém girava uma manivela que me fazia submergir cada vez mais fundo para dentro do escuro da meia-noite, para dentro de uma hora parada, para dentro de uma zona morta. E eu podia quase ouvir o ruído dessa minha roldana imaginária conforme esta sensação se intensificava dentro de mim – podia quase sentir uma corda amarrada na altura do estômago, apertando minhas costelas, me descendo mais e mais…

   Para, por fim, alcançar o fundo…

   E o fim, o fundo de uma noite silenciosa, poderia ser somente o som de um despertador.

   Abri os olhos como se acordasse de um sonho e então corri a vista pelo quarto. Ao lado do relógio, que agora marcava meia-noite e cinco, meu celular tocava num volume exagerado – totalmente indiferente ao tardar das horas e bruscamente interrompendo a quietude da noite.

   Levantei da poltrona, me sentindo de certo modo desconcertado, e tentei chacoalhar o mais rápido possível as estranhas sensações de segundos antes – não parecia adequado atender o telefone do modo como estava, sentia como se pudesse acabar cacarejando ou grasnando em vez de simplesmente falar alô. Mas, quando tomei o celular em mãos, parei no mesmo instante. Na tela do aparelho, liam-se nove zeros em sequência: a identificação irônica de algum número bloqueado. Aquilo mais parecia um sinal de mau agouro, e não uma ligação inocente no início da madrugada – ou, no mínimo, era um aviso de que algo realmente estava para acontecer, fosse algo bom ou ruim. Continuei estacado no lugar, encarando a tela, sem me decidir se atendia ao telefonema.

   Procurando não pensar muito, atendi.

   – Alô? – apesar de as sensações estranhas terem retornado, não grasnei ou cacarejei.

   – Alô. – e a voz do outro lado da linha me respondeu prontamente.

   Por pouco eu não sabia dizer se estava ainda mais surpreso que antes ou não. Porque, mesmo que fosse de fato uma ligação inesperada, de todas as vozes no mundo, sentia como se na verdade eu esperasse por aquela voz mais que qualquer outra, sentia como se fosse a única voz no mundo que não me surpreenderia mesmo ligando de súbito. Era Clara, e, talvez exatamente por todas as estranhezas desse começo de madrugada noite, não existia mais ninguém que se encaixasse melhor do que ser logo ela quem me telefonava…

[…]

Fantasma de capa de chuva?

“Te vejo sonhando – e isso dá medo –
Perdido num mundo que não dá pra entrar.
*
Cê acha que eu sou louca,
Mas tudo vai se encaixar.”
(
Na Sua Estante – Pitty)


Sonolenta, deitada ao seu lado sobre a cama, lembro que perguntei a ele quase que espontaneamente: – Você já ouviu a história do fantasma de capa de chuva? – sentia uma metade de mim acordada e a outra metade mergulhada entre sonhos confusos.

   – História do quê…? – ele perguntou de volta, também cansado e distraído.

   – A história do fantasma de capa de chuva… – repeti lentamente.

   Ele abriu os olhos e, virando o rosto para mim, franziu o cenho enquanto me encarava com uma expressão confusa. O escuro denso da madrugada, que a face interna da cortina guardava dentro do quarto, pintava seu olhar com uma complexa paleta de cinza. O jeito dele de me observar era tão intragável… Eu o encarei de volta e, enquanto sacudia a cabeça com um suspiro impaciente, senti roçarem nos meus olhos umas fatias magricelas de luz amarelo-incandescente que escapavam pela janela, arranhando a minha vista. E a noite da sua cidade era tão iluminada…

   – História do fantasma de capa de chuva…? – ele deixou escapar uma risadinha irônica: – E isso lá existe, um fantasma de capa de chuva?

   – Eu não sei se existe, mas… E daí? – estalei os lábios, incomodada. – Se é uma história de ficção, é óbvio que não precisa existir…

   – É verdade, é verdade… – ele bocejou, respondendo num tom desinteressado. – Mas, enfim, eu nunca ouvi falar de nada assim…

   – É, eu já meio que imaginava… – eu retruquei, agora sem mais saber se tinha vontade de falar sobre. – Mas você bem que podia conhecer…

   – E por que é que eu deveria conhecer? – ele perguntou balançando o rosto.

   – Sei lá, só porque eu gosto dessa história. – eu respondi sacudindo os ombros.

   Permanecemos assim, calados, um olhando para o outro, por meio minuto. Ele segurou seus olhos semiabertos, pesados de sono, só durante esses poucos segundos, enquanto ainda me observava do mesmo jeito irritante, desinteressado, como quando você escuta alguém falar sobre um monte de baboseiras. Todavia, logo depois que eu cansei de encará-lo, ele mesmo se virou para o lado dizendo algo como “Bom, depois você me conta desse fantasma aí então…”, e, sem mais paciência, num instante tornou a dormir despreocupadamente.

*

   Pela manhã as maritacas que moravam nas árvores ali por perto levantavam voo uma a uma, soltando uma estridente saraivada de pios. Não sei bem por que, eu ainda estava acordada, pensando no mesmo desgraçado fantasma de capa de chuva… Àquela hora, pouco depois do sol nascer, ele ainda dormia tranquilamente, envolto em sonhos que eu mesma não conhecia, largado no seu lado da cama…

   Deve ter sido só por volta das sete da manhã quando eu finalmente consegui dormi, e sei disso porque, pouco depois, ele mesmo acordou com o toque barulhento do alarme do seu celular. E, assim que ele se levantou da cama num sobressalto, arregaçando as cortinas do quarto cada uma para um lado em um gesto atabalhoado, mais uma vez eu acordava contra minha vontade… Mesmo dormente, assim que abri os olhos me lembrei do meu fantasma de capa de chuva.

   Por um longo minuto, ouvindo seu vai-e-vém para cima e para baixo dentro do quarto, pensei de longe sobre nosso diálogo sonolento de dentro da madrugada, e silenciosamente mastiguei a ideia de falar com ele sobre, de enfim contar a ele a tal da história. Mas pouco depois, meu corpo amoleceu sob a impaciência da insônia… Eu me encolhi, deitando de lado, e rapidamente me deixei esquecer do fantasma. “Deixa para lá, depois eu te conto então…”, foi o que pensei.

 


Há duas categorias de coisas que gosto de ter contato ao pensar em escrever: a primeira, ouvir músicas, e a segunda, ler textos dos meus autores favoritos. E, dentro dessas duas categorias, há ainda subcategorias, claro. Quanto à segunda, que é ler textos dos meus autores favoritos, é necessário primeiro pensar em quais são meus autores favoritos. Acho que quem conhece um porcento de mim vai saber que é fácil listar os três primeiros: Hakuri Murakami, Jack Kerouac e Natsume Soseki. Porém, tenho ainda um autor, que poucos têm contanto, e que por vezes chega até a roubar o primeiro lugar: Ryuunosuke Akutagawa. Não é à toa que, se eu pudesse ter um filho com nome japonês, a criança ia ter a desgraçada sina de se chamar Ryuunosuke… Para quem não conhece este autor, é interessante saber ao menos um pouco da sua história: Akutagawa é tido hoje como um dos pais da literatura japonesa, e foi um escritor de contos que abordavam especialmente a essência trágica da natureza humana. Dentre os trabalhos famosos desse escritor, um conto chamado “Yabu no Naka”, traduzido como “Dentro de um Bosque”, deu origem ao grande filme de Akira Kurosawa, Rashōmon; todavia, o conto de Akutagawa que mais me encanta é um chamado “Rodas Dentadas”. Rodas Dentadas, escrito no ano de sua morte, retrata um pouco do declínio mental de Akutagawa, e esse mesmo foi o conto que me trouxe, bem sem querer, o texto que posto aqui hoje; abaixo, o meu trecho predileto de “Rodas Dentadas”…


“Deixando a área residencial de veraneio nos confins da Linha Tokaido com apenas uma mala, eu fazia o táxi correr até uma estação ferroviária dessa linha. Pretendia comparecer à cerimônia de casamento de um conhecido. Quase o tempo todo, só se viam pinheiros frondosos em ambos os lados da estrada. Era improvável que pudesse chegar a tempo para o próximo trem com destino a Tóquio. Compartilhava o táxi comigo um dono de barbearia, gorducho feito jujuba, de barba rala no queixo. Preocupado como eu estava com o horário, o diálogo entre nós era esporádico.
   – Sabe de uma coisa estranha? Dizem que se vê fantasma na mansão do Senhor X, mesmo de dia.
   – Mesmo de dia, é?
   Eu observava um morro distante coberto de pinheiros, sob o sol poente de inverno, e participava distraído da conversa.
   – Se bem que não em dias claros. Dizem que ele aparece mais nos dias chuvosos.
   – Para se molhar, quem sabe.
   – Brincadeira sua… Mas dizem que é um fantasma com capa de chuva.
   O táxi encostou buzinando, e eu me despedi dele para entrar na estação. Como receava, o trem para Tóquio já deixara a plataforma dois ou três minutos antes. No saguão de espera, um homem, de capa de chuva, observava distraído o lado de fora. Me lembrou o que acabara de ouvir, sobre o fantasma, e sorri contrafeito.”

(Trecho do conto “Rodas Dentadas”, de Ryuunosuke Akutagawa)